Quatro Rodas

Nos bastidores da MotoGP

Nosso colunista e piloto de testes Leandro Mello relata um pouco do universo da principal categoria do motociclismo mundial

19/05/2014 11:07

Por Leandro Mello, piloto de testes de Duas Rodas e do programa Auto Esporte, da Rede Globo

Sempre fui aficionado por corridas de motos. Acompanho o mundial de motovelocidade desde os tempos de Kevin Schwantz e Wayne Rainey, mas com o término da etapa no Brasil nossos ídolos ficaram cada vez mais distantes. Por sorte, há pouco tempo tive a oportunidade de voltar a acompanhar de perto a MotoGP para matérias do Auto Esporte.

Começou com a vinda do Valentino Rossi no começo do ano passado e, no segundo semestre, acompanhando a etapa da Holanda. Neste ano fui presenteado mais uma vez, agora a convite de Honda e HRC, para assistir à primeira etapa de 2014, no Catar, e visitar os bastidores da prova. Quando cheguei à pista, bem antes do circo todo estar pronto, pude ver de perto do que é preciso para sediar uma prova como essa. O primeiro impacto foi ver as várias caixas para transporte de materiais de cada equipe: logo que foram abrindo achei que veria as motos semi-prontas, mas as motos chegam inteiramente desmontadas. Uma enorme surpresa, pois nada está pronto e o fato de desmontarem tudo garante que a revisão é completa e o que não é restringido pelo regulamento será trocado. Nenhum fluido é aproveitado, o radiador está totalmente seco e o cuidado com cada parte da moto é enorme.

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Outra surpresa que destaco é a adaptação do piloto à pista. Academia do hotel? Não, os pilotos usam a própria pista para se exercitarem. Cal Crutchlow parece um ciclista profissional, com todo o equipamento e bicicleta de atleta. Durante duas horas que fiquei próximo do asfalto perdi a conta de quantas voltas ele deu em ritmo forte. Todos os outros pilotos correm a pé, é impressionante: dizem que além do necessário preparo físico, se ambientam à pista e a memorizam melhor.

Descobri que o que vemos pela televisão é um espetáculo editado para exibir os melhores ângulos da cidade e do autódromo. A realidade é um grande deserto com uma “ilha” de luxo construída numa região que pouco tem de belo ou estético. À noite, a iluminação transforma o autódromo em palco de espetáculo, realça a qualidade da pista, áreas de escape, o verde da grama sintética. Parece uma infra-estrutura fantástica, e é, mas se chover ou ventar a areia invade o asfalto.

O que mais estranhei foi a falta de público. Durante os dias de treino, 50 pessoas no máximo. As arquibancadas já pequenas estavam vazias. No dia da corrida os fãs ocupavam apenas um pequeno pedaço das instalações perto das motos na largada. Pensei: “se o mundial voltasse ao Brasil não faltariam fãs para lotar as arquibancadas!”

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Fui recebido por Rhys Edwards, responsável pela comunicação da Honda na MotoGP. E em pouco tempo vinha conversar comigo o pequeno Dani Pedrosa. Sei que ele não gosta de entrevistas e um pouco antes os assessores vetaram perguntas sobre o passado, ou seja, quase toda a minha entrevista. Durante o bate papo ele foi bem mais simpático do que eu imaginava. Ele é exatamente o que aparenta e não tenta causar outra impressão diante das câmeras – como o Lorenzo, que se esforça para ser carismático e não é assim na realidade. Dani disse que neste ano fará de tudo para ser campeão. Perguntei se ser menor e mais leve o ajuda, mas diferentemente do que esperava ouvir recebi um “nem sempre”. O ritmo frenético de pilotagem exige muita força e resistência, o que é mais fácil para alguém de maior porte. Dani já pesou 47 kg e hoje está com 51 kg. Como não existe mais vantagem em peso, pois agora as motos são pesadas junto com piloto, o menor porte pode significar menos arrasto aerodinâmico, mas também menos força física.

Pouco depois abriram a porta do box de Marc Márquez e o reconheci pelo pé imobilizado. Ele tem uma energia muito positiva e até chegar a mim brincou e riu com três pessoas pelo caminho. Parece que ainda vibra com a oportunidade de correr na MotoGP, sem estrelismo ou excesso de seriedade. Perguntei se sente a pressão de defender um título, pois para ele foi uma constante estrear na categoria, se tornar campeão e no ano seguinte passar à categoria superior. Foi assim da 125 para a Moto2 e depois para a MotoGP. Respondeu que sente sim a pressão e este ano será diferente, mas manterá o foco para ganhar o título novamente.

Quis saber também como estava a recuperação da fratura na perna que o fez perder grande parte dos treinos pré-temporada e a adaptação ao novo pneu da Bridgestone. Ele respondeu rindo que não consegue ficar parado nas férias e passa o tempo andando de moto, seja trial, supermotard ou modalidades off-road. Assim que acabou quebrando a perna. “Uso bastante a força das pernas na pilotagem e ainda sinto muita dor”, contou. Márquez é um novo ídolo rápido, sortudo e carismático, disso não há dúvida. Parece que a Honda acertou em cheio.

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