Quatro Rodas

Da cortina de ferro para o Brasil: a história da MZ 250

Modelo veio da socialista Alemanha Oriental na década de 1980, com estrutura robusta e incomum para o público brasileiro

14/10/2019 11:10

Em 1984 o mercado brasileiro se resumia praticamente a Honda e Yamaha. Isso atraiu empresários locais interessados em nacionalizar modelos europeus, devido à escassez de opções à venda no país. Separadas por poucos meses começaram as produções locais de Vespa PX, Cagiva SXT e da pouco lembrada MZ 250. 

A Fábrica Brasileira de Motos (FBM) surgiu em Porto Alegre (RS) na década de 1970. E como tantas outras metalúrgicas, ingressou no negócio de motocicletas para nacionalização de tecnologia estrangeira. Neste caso, modelos de baixa cilindrada da argentina Zanella, que por sua vez utilizava tecnologia licenciada da italiana Minarelli. 

Decidida a atingir um público que buscava motos de maior cilindrada a FBM firmou um acordo com a MZ. A fabricante da Alemanha Oriental produzia motos DKW e seguiu de forma independente após a ocupação soviética no fim da 2ª Guerra Mundial. O modelo escolhido foi a ETZ 250, aqui rebatizada de MZ 250 RS. Ingressaria em um vácuo do mercado, pois a Yamaha RX 180 estava saindo de linha e nesta faixa de cilindrada entre as 125cc e a Honda CB 400 haveria apenas modelos trail: Yamaha DT 180, Agrale SXT 27.5 e Honda XL 250R.    

O preço sem dúvida seria o principal apelo da MZ lançada no fim de 1984. Era uma 250cc vendida por valor semelhante ao da Agrale SXT 16.5 (125cc). Seu projeto tecnológico, no entanto, era muito diferente do que as japonesas estabeleciam como padrão na época. A MZ era uma moto de tecnologia simples, que tinha mais foco em durabilidade do que performance. 

A estética antiquada do modelo original teve de ser adaptada ao gosto brasileiro: tanque, rabeta, laterais e carenagem foram redesenhados. O design estilizado do modelo brasileiro modificava completamente a impressão causada pela ETZ 250 original. A moto socialista tinha farol redondo, tanque de linhas retas e na traseira, apenas uma lanterna redonda sobre o para-lama.       

Apesar da revisão de design a MZ mantinha características peculiares. O chassi de aço estampado não tinha ponto de fixação do motor na parte frontal, fazendo parecer que estava “pendurado”. E a corrente de transmissão ficava completamente isolada por uma cobertura plástica para evitar o acúmulo de detritos. Motor e câmbio eram importados, já chassi, chicote elétrico, sistema de iluminação, tanque e plásticos da parte estética eram nacionais. 

Algumas peculiaridades dificultavam o uso ou ao menos a adaptação dos brasileiros a MZ 250. Por causa dos novos componentes locais, vinha com quatro chaves (ignição, tanque, tampa lateral e trava do guidão). Virada a chave de ignição, o pedal de partida estava do lado esquerdo. E no painel a faixa vermelha do conta-giros indicava o intervalo de rotações ideal para melhor rendimento. Painel e comandos apresentavam acabamento rústico para o padrão da época.

O motor de 2 tempos da MZ 250 RS tinha 1 cilindro e mistura de óleo automática à gasolina. Ficava em um reservatório separado do impressionante tanque para 23 litros, evitando o ajuste da proporção a cada abastecimento.  Nada especialmente inovador, uma vez que o recurso foi popularizado pelas japonesas nos anos 1970. Com 243cc rendia modestos 21 cv a 5.500 rpm e 2,8 kgf.m a 5.200 rpm. Apresentava funcionamento irregular em baixas rotações porque não contava com válvula de palhetas como outros motores 2 tempos da época. A velocidade máxima ficava ao redor de 120 km/h e atingia 100 km/h em 14s4.

Destacavam-se o freio dianteiro com disco superdimensionado de 280 mm e o garfo de suspensão com ajuste “firme”, que dificilmente chegava ao fim dos 185 mm de curso. Já na traseira havia um conjunto convencional de freio a tambor de 160 mm e dois amortecedores nacionais. Nos testes o sistema a tambor fadigava com facilidade, enquanto os amortecedores produziam oscilações em curvas mais rápidas.  

No início de 1986 a FBM passou a vender a versão RSJ, apresentada como variação mais luxuosa. Vinha com guidão mais baixo, escapamento e molas dos amortecedores pintados de preto fosco, cobertura de alumínio dourada no cabeçote. Além de vermelho, azul, branco e preto da RS, somava a opção cinza metálico. A RSJ não tinha modificações mecânicas, mas no teste se mostrou melhor adaptada à gasolina nacional. Um ano e meio depois da primeira avaliação da MZ, o conta-giros avançou de 6.000 rpm para 7.000 rpm. E a velocidade máxima evoluiu para 130 km/h. A esta altura a fabricante que inicialmente tinha planos ousados de crescimento e pretendia até exportar já estava de saída. A FBM parou de produzir a MZ 250 em 1987, deixando raras unidades remanescentes e uma história pouco conhecida. 

 

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