AVALIAÇÃO: os quatro números da Ducati Diavel V4

Ela é simplesmente o ápice mundial do “fun to ride”. Nada, absolutamente nada sobre duas rodas é tão singular. E divertido

23/03/2026 11:03

Texto e fotos: Edu Pincigher

Por mais que quisesse esquecer do clichê de “Ferrari das motos”, ele me perseguiu por semanas, enquanto negociava uma data com a fabricante italiana para preparar essa avaliação para DUAS RODAS. Acho que porque a Ducati... é A MOTO, em letras maiúsculas, se o leitor me permite. A motocicleta que possui personalidade, carisma, o verdadeiro lifestyle de quem aprecia a condução e o prazer de pilotar uma moto.

Logo no primeiro contato, você já sente um certo desconforto por tentar entender onde ela se encaixa. Spoiler: ela não se encaixa. A Ducati Diavel sempre foi essa transgressora. Mas se as versões anteriores, com o icônico motor V2, eram como um soco no estômago – brutas, vibrantes e cheias de personalidade –, a nova Diavel V4 é um xeque-mate da engenharia de Borgo Panigale.

Ao vivo, a Diavel V4 é mais impactante do que qualquer foto consegue mostrar. O conjunto é baixo, largo e musculoso, mas sem exageros gratuitos. Tudo parece calculado para transmitir força. E fazer isso bem depressa. O pneu traseiro 240 não está ali só para estética. Ele ajuda a construir essa identidade brutal, quase de dragster, mas com um nível de acabamento e refinamento que só a Ducati sabe entregar.

A traseira minimalista, com o conjunto ótico em LED pontilhado sob o assento, é um espetáculo à parte. Moderna, limpa e com assinatura própria. Você olha e entende: isso aqui não é uma cruiser comum.

Os quatro números

Toda vez que avalio uma moto para alguma reportagem, eu a submeto a quatro números. De modo pragmático, esse é o segredo. Parece óbvio que, antes de servir ou não a alguém, neste caso, a você, que lê esse artigo, ela precisa me convencer. E isso só é possível após o crivo dos quatro números. Acompanhe-os comigo. Quem sabe a Ducati Diavel V4S também lhe convença.

E já adianto o placar: ela venceu de 4x0.

1) 168

O princípio básico de qualquer motocicleta é andar. Rápido, se possível. Ainda mais uma motocicleta dessa estirpe, em que você só se aventura em adquiri-la por um inominável prazer pessoal.

Pois a potência dessa Ducati me empolgou. Confesso que a primeira enrolada no cabo até me assustou. Parece que não terá fim... Basta dizer que ela chega a 270 km/h. Aliás, ela é mais rápida pra chegar a 100 km/h do que você para ler o tempo que ela consome para atingi-la: dois segundos e cinco décimos.

O motor é simplesmente absurdo, no melhor sentido possível. A potência é entregue de forma linear, progressiva e, ao mesmo tempo, assustadoramente rápida. Trata-se de um V4 Granturismo de 1.158 cc. Sim, o mesmo que equipa a Multistrada, mas com um tempero próprio para essa muscle cruiser.

São 168 cv de potência a 10.750 rpm e 12,8 kgfm de torque a 7.500 rpm. A proximidade das rotações de potência e torque máximos explicam por que ela ficou até “doce” pra pilotar, caso você queira rodar na cidade. Tem progressividade que o antigo V2 não conhecia.

2) 223

Apesar do up grade no motor com os dois cilindros a mais, a moto ficou 13 kg mais leve que sua antecessora, e acredite: em uma máquina desse porte, cada grama a menos é um sorriso a mais na hora de deitar na curva. Ela pesa apenas 223 kg.

O ronco dessa usina de potência endossa a impressão causada pelos números. A resposta do acelerador é imediata. Você cutuca a mão direita e lá está ele. É uma força que não intimida. Ela te convida. Continua parecendo um dragster pronto a arrancar, girando o pneu traseiro em falso se você resolver despejar potência no asfalto.

E não é só impressão. Tanto que a Diavel possui controle de tração ajustável em cinco níveis, do mais “seguro” ao desligado, e quatro modos de condução: Sport, Touring, Urban e Wet, que ajustam a potência, resposta do acelerador e assistências eletrônicas. Eles liberam 168 cv (Sport/Touring) ou limitam a 115 cv (Urban/Wet), permitindo personalizar o comportamento da moto com ABS Cornering, Controle de Tração (DTC) e Anti-Wheeling.

A Ducati joga no nível premium quando o assunto é eletrônica, como esperado. Além dos modos de pilotagem e do controle de tração ajustável, ela tem anti-wheeling, controle de largada, cruise control e quickshifter bidirecional, daqueles empolgantes, que engolem uma marcha após a outra e te instigam à irresponsabilidade. Nada é intrusivo. A eletrônica está ali para potencializar a experiência, não para limitar.

Como não sou piloto, preciso relatar aqui algo bem particular e delicioso ao pilotar a Diavel: você não vai chegar ao limite da moto. Mas é sensacional “saber” que toda aquela potência estará lá.

O chassi é extremamente competente. A distribuição de peso é bem resolvida e a ciclística surpreende muito. Se você estranha a largura do pneu traseiro nos primeiros 50 metros, achando que tal largura a deixará “quadrada” na pilotagem, posso assegurar que ela ataca as curvas em estradas sinuosas melhor do que qualquer moto desse porte deveria entrar, mérito das suspensões Ohlins. E sai ainda mais forte.

Claro, não é uma esportiva. Mas também está longe de ser limitada. A posição de pilotagem é confortável, com pedaleiras avançadas, mas sem exageros. O guidão largo ajuda no controle e dá aquela sensação de domínio total da máquina. É uma moto que aceita diferentes estilos de pilotagem, do passeio tranquilo ao ataque mais agressivo.

Apesar do entre eixos longo, de 1,59 metro, e dos 83 cm de largura, olha que ela até enfrenta o trânsito congestionado com desenvoltura ímpar. Ela é grande, larga, comprida e dotada de um tanque enorme (20 litros). Os motoboys ficam incrédulos! Como um monstrão como esse é capaz de acompanhá-los nos estreitos corredores? A Diavel, a despeito do porte, é extremamente amigável em baixas velocidades.

E eu valorizo muito essa facilidade de condução. De que adianta uma super bike, campeã de potência e desempenho... se você não consegue andar com um monstro desses no tráfego das grandes cidades de tão pesada e indócil em baixas velocidades?

Com a Diavel, a Ducati conseguiu reunir um sem-número de virtudes: ela tem o conforto de uma custom (o assento é espetacular), o desempenho de uma esportiva (tanto pra andar como pra frear) e ciclística de uma “naked”, que oferece os mesmos atributos das “speed”, mas com posição de pilotagem menos radical.

3) 79

Vamos entrar num tema curioso. Para quem tem 1,65 metro de altura, andar de moto é fácil. O duro, amigo, é parar. O chão fica sempre distante... Mas esses 79 cm de altura do selim da Diavel são surpreendentemente adequados para os baixinhos. Dá pra dizer que se torna inacreditável que uma moto tão grande possa ser tão fácil de ser conduzida por qualquer biotipo de motociclista!

Quando você se depara com a Diavel pela primeira vez, a relação de simpatia é imediata. O design convida logo a assumi-la e sair por aí para a primeira banda. Vem à mente a dificuldade de lidar com uma motocicleta tão “grande”. E isso frustra qualquer baixinho, mas... não com ela. Você assume o banco da macchina e (surpresa!!) planta logo as duas solas no chão. Parece um scooter!!

Dá a partida – ela possui keyless, ou seja, você guarda a chave no bolso e apenas aciona a partida –, ouve o rugido forte, brinca com o acelerador... ajeita os espelhos e começa sua aventura. Estranha (bastante) o quão pesado é o engate da primeira marcha e o tranco que ela dá a frente. Mas a facilidade com que ela se move em velocidades baixas logo te conquista.

O painel tem uma enorme tela de TFT de 5 polegadas, com leitura excelente, e controles fáceis de serem manuseadas no punho esquerdo.

4) 155.990

A Ducati Diavel V4 não é para quem quer “uma moto boa”. Ela é para quem quer algo diferente. Para quem já teve outras motos, já experimentou outros estilos e agora busca algo que entregue performance, presença e personalidade em um único pacote.

Ela mistura mundos: um pouco de naked, um pouco de esportiva, um pouco de Cruiser. Mas, no fim, não é nenhum deles. É uma Diavel. E talvez seja exatamente isso que a torne tão especial. Porque em um mercado cheio de motos cada vez mais parecidas… ela escolheu ser única.

Cento e cinquenta e cinco mil, novecentos e noventa reais por toda essa diversão. É caro? Sim, é. A julgar pela lista extensa de adjetivos dessa moto, que reúne características incomuns e um design pra lá de exclusivo, entretanto, ela não chega a ser tão dispendiosa assim. Até mesmo porque a Ferrari (de verdade) é bem mais cara, não? Fique com a de duas rodas.
 

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