Duas Rodas
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Nascida para se sujar

Primeiro teste com a Africa Twin no Brasil comprova agilidade e capacidade off-road acima da média

01/12/2016 às 17h14m

Depois que a Honda tirou a Africa Twin da linha de produção em 2002 o foco se concentrou em grandes modelos de uso misto mais touring, como Varadero e Crosstourer, ou de vocação realmente on-road como as crossover de aro dianteiro 17. Um ano após o bem-sucedido lançamento na Europa, a CRF 1000L Africa Twin chega ao Brasil mostrando que nasceu e cresceu em quintal de terra, sem medo de se sujar.

Além do nome, e do projeto inspirado nas motos que disputam o Dakar, pouco resta da antiga Africa Twin, até porque o tipo de moto que compete no rali mudou muito nos quase 30 anos que separam estes dois projetos. Antes a receita de grandes motores ao redor de 800cc e tanques na mesma proporção para abastecê-los produzia motos largas e menos ágeis, enquanto os modelos de competição atuais são as 450cc CRF, esguias e ágeis. A nova Africa Twin foi projetada refletindo este conceito, para que seu grande diferencial fosse justamente a agilidade, atributo que falta à maioria das concorrentes. Mais estreita, com tanque para 18,8 litros, também proporciona melhor posicionamento de pernas e ajuda na condução off-road em pé sobre as pedaleiras.

O motor de 2 cilindros agora paralelos, em vez de V2, é mais compacto e reduz o centro de gravidade ao buscar recursos como o comando de válvulas Unicam das CRF de competição: um eixo de cames atua diretamente sobre as 2 válvulas de admissão de cada cilindro e nos balancins que acionam as 2 de escapamento. Com o virabrequim defasado em 270° (pistões não funcionam como gêmeos, nem opostos) ruído e comportamento até se assemelham ao de um V2, e a combustão é mais eficiente com duas velas por cilindro. O novo motor que gera 95 cv e 10 kgf.m de torque na Europa, no entanto, perdeu rendimento ao ser adequado ao Promot 4 e aqui produz 90 cv a 7.500 rpm e 9,3 kgf.m a 6.000 rpm. É suave, em estradas de piso pavimentado faz parecer que falta tempero nas acelerações e retomadas – receita oposta à das KTM Adventure – mas busca facilitar a vida no fora de estrada.

Buracos da Canastra

Viajamos para a Serra da Canastra, em Minas Gerais, buscando o primeiro teste off-road da nova Africa Twin. O trajeto começou atravessando o interior paulista pelo asfalto, a 120 km/h o conta-giros marca 4.000 rpm com baixo nível de vibração, mas não empolga, falta a “pegada” que se espera de uma 1.000cc, afinal a potência está no patamar das 800cc e é o torque que sobressai. Em nossas medições ela foi capaz de acelerar de 0 a 100 km/h em 4s11, entre os 4s25 da BMW F800GS e os 3s85 da Ducati Multistrada Enduro.

A região onde começou o trajeto off-road é famosa por abrigar a nascente do Rio São Francisco, inúmeros riachos e cachoeiras. Não faltam opções de trilhas, a maioria de piso calcário, com muitas pedras, areia e valas. Apesar do caminho não ser de dificuldade exagerada, as subidas e o tipo de terreno faziam a moto derrapar constantemente, tanto de dianteira como traseira, o controle de tração ajustado no nível 1 (mínimo) deixou a pilotagem bem à vontade já que permite derrapagens controladas pelo piloto. Em nível máximo 3 as interrupções na aceleração em subidas com pedras soltas são exageradas e acabam prejudicando o avanço neste tipo de condição, mas segundo o pessoal da Honda é indicado para asfalto molhado. Desligando o ABS, operação feita através de botão do lado direito do painel com a moto parada, o sistema continua atuando na dianteira com funcionamento suave e preciso, digno de elogio, tal qual o da XRE 300. De bom tato, o sistema de freios é muito eficaz.

Apesar de a eletrônica ser simples diante de concorrentes que oferecem suspensões semi-ativas, cornering ABS, mapas de entrega de potência e cruise control, a Africa Twin é pragmática e dá conta do que se propõe a fazer: ser eficiente no uso fora de estrada. As suspensões têm cursos suficientes para encarar de tudo (230 mm na dianteira e 220 mm na traseira) e contam com as três vias de regulagem. Funcionam quase à perfeição, engolindo pedras, valas, areia, mata-burros e permitindo saltos com confiança, exceto em dois momentos nos quais a dianteira chegou ao fim de curso, ao atravessar um desnível que parecia um enorme degrau em um mata-burro. Neste momento estávamos com a regulagem padrão de fábrica, que certamente poderia ser refinada.

A leveza do conjunto traz confiança para mudar de trajetória rápido, e se você sente dificuldade ou simplesmente não fica à vontade off-road, a Africa Twin é um passaporte para você começar a se divertir na terra sem sustos, naturalmente e com a docilidade característica da marca. Ao contrário da percepção no asfalto, rodando fora de estrada o motor parece bem dimensionado. Embora seja possível fazê-la dançar de um lado a outro apenas com o uso do acelerador, com toda a eletrônica desligada ainda é mais fácil de controlar do que qualquer concorrente.

A Africa Twin está à venda nas cores vermelha e tricolor em duas versões: standard e Travel Edition, que se diferencia por baú e malas laterais, para-brisa alto, cavalete central e protetor tubular em volta da carenagem. Por R$ 64.900 e R$ 74.900, o desafio da Honda será convencer o público a não comprar Yamaha Super Ténéré DX, Triumph Tiger Explorer XCx ou BMW R1200GS, uma vez que na Europa (diferentemente do Brasil) o posicionamento do modelo é intermediário entre as 800 e 1200.

 

Ficha técnica

Motor: 999cc, 2 cilindros paralelos, 4 válvulas por cilindro, comando simples no cabeçote, refrigeração líquida

Diâmetro x curso: 92 mm x 75,1 mm

Taxa de compressão: 10:1

Potência: 90,2 cv a 7.500 rpm

Torque: 9,3 kgf.m a 6.000 rpm

Alimentação: injeção eletrônica

Câmbio: 6 marchas

Chassi: berço semi-duplo de aço

Suspensões: garfo telescópico invertido na dianteira e monoamortecida na traseira, ambas com ajustes de pré-carga, compressão e retorno

Pneus: 90/90-21 na dianteira e 150/70-18 na traseira

Freios: discos de 310 mm com pinças de 4 pistões na dianteira e disco de 256 mm com pinça de 1 pistão na traseira

Comprimento: 2.334 mm

Largura: 932 mm

Altura: 1.478 mm

Altura do banco: 850 mm

Entre-eixos: 1.574 mm

Distância do solo: 250 mm

Peso: 232 kg (ordem de marcha)

Tanque de combustível: 18,8 litros

Preços: R$ 64.900 e R$ 74.900 (Travel Edition)

 

Performance

Aceleração 0-100 km/h: 4s11

Frenagem 100-0 km/h: 53,47 metros

Retomadas em 6ª marcha

60-80 km/h: 2s72

80-100 km/h: 3s22

100-120 km/h: 3s35

Condições do teste: 590 metros de altitude, 37°C, umidade relativa 35%, pressão atm. 1011 HPA.

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